Camerata Atlântica. A música clássica portuguesa pelas cordas sul-americanas

in Diário de Notícias, 12 Out 2019 notícia online

Temporada Música em São Roque começou na sexta-feira e termina a 10 de novembro. Domingo sobe ao palco a Camerata Atlântica, nascida da ideia da violinista Ana Beatriz Manzanilla e de um grupo de amigos.

Ana Beatriz Manzanilla está há 24 anos em Portugal. Menos um do que aqueles que viveu em Barquisimeto, na Venezuela, que deixou para estudar durante um ano na Polónia até que inesperadamente acabou por parar em Guimarães. Depois de se estabelecer finalmente em Lisboa, fundou a Camerata Atlântica, uma orquestra de corda, que amanhã sobe ao palco no Convento São Pedro de Alcântara, integrada na Temporada Música em São Roque, da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

O grupo de que a violonista é a diretora artística nasceu há praticamente seis anos (em novembro de 2013) e é um projeto que 12 músicos mantêm em paralelo com as suas atividades principais. Ana Beatriz Manzanilla é primeiro-violino na Orquestra da Gulbenkian, o marido toca viola na Orquestra Sinfónica Portuguesa, e outros músicos estão noutras orquestras. Trabalhos que são “um privilégio”, mas que a violonista diz precisarem de ser acompanhados por projetos especiais como a Camerata Atlântica. Porque respondem a “alguma inquietude” comum a todos os músicos. “Uma inquietude em ter um grupo mais pequeno, seja de música de câmara ou mesmo completamente fora da música erudita, jazz, étnica.” É uma forma de se sentirem livres e realizar projetos mais individuais. A própria Camerata já tocou desde barroco a tangos, boleros e música latino-americana, em geral, explica Ana Beatriz Manzanilla.

O grupo é um projeto que os músicos mantêm em paralelo com as suas atividades principais © Sara Matos / Global Imagens


Uma bolsa para a Polónia acabou em Guimarães

“Nunca imaginei viver em Portugal e ter filhos portugueses, nasci na Venezuela. Estudei sempre no sistema de orquestras infantis e juvenis da Venezuela. Sou natural de Barquisimeto, a mais de 300 quilómetros de Caracas, mas uma cidade com muita tradição musical”, começa por descrever Ana Beatriz Manzanilla.

A sua carreira faz-se dos 8 aos 25 anos nas orquestras venezuelanas, pontuada por algumas vindas à Europa para cursos esporádicos, “nas férias da Páscoa e assim”.

Até que chega aos 25 anos e decide, juntamente com o namorado de então – hoje marido – fazer uma experiência de mais tempo na Europa. Saíram com uma bolsa de um ano para Cracóvia, na Polónia, em 1995, para uma academia de música de câmara. “Foi uma vivência muito rica. Só tínhamos de estudar e ensaiar. Não tínhamos filhos, era só isso. Aproveitámos muito bem o tempo, viajámos, demos concertos.”

A violonista reconhece que gostava de ir com mais frequência à sua terra, não fosse a situação política tão complicada.

Perto do fim da bolsa, quando pensavam que iam regressar à Venezuela, onde tinham trabalho na sinfónica da cidade natal, receberam um convite para a Orquestra do Norte, que ficava em Guimarães. “Recebemos um fax com esse convite”, recorda Ana Beatriz, que nunca tinha vindo a Portugal “nem sabia onde ficava Guimarães”.

A oferta de trabalho era para primeiro-violino (para Ana Beatriz) e primeira-viola (para o marido). “Quando se é jovem, não se tem medo de grandes desafios. Não tínhamos compromissos e pensámos: vamos conhecer.” Estiveram seis meses em Guimarães, “uma cidade lindíssima que adorámos, foi uma entrada em Portugal muito linda”.

Passado meio ano, decidiram rumar a Lisboa, para tentar a sua sorte. “Havia vagas na Orquestra Sinfónica para primeira-viola e o meu marido ganhou a audição”. O que fez que Ana Beatriz não quisesse voltar para o norte sozinha. Então ligaram para a Orquestra Sinfónica e souberam que havia uma audição na Gulbenkian duas semanas depois. A violinista acabou por conseguir o lugar, depois de uma viagem de Guimarães a Lisboa num carro alugado. “Ficou decidida a nossa vida. Estamos há 24 anos a ver como é que vai correr a estada em Lisboa”, justifica, entre risos.

Dessa habituação não poderia resultar um balanço melhor: “Temos ótimos trabalhos, ótimas oportunidades e fomos ficando apaixonados pela comida, pelas pessoas, pela cultura. Depois vieram as amizades, os filhos, que nasceram cá há 21 e 18 anos, e a seguir vieram os projetos mais pessoais de música.” O regresso à Venezuela será difícil, uma vez que os filhos já nasceram cá, mas a violonista reconhece que gostava de ir com mais frequência à sua terra, não fosse a situação política não complicada.

Uma Camerata que amanhã mostra apenas sons nacionais

Em 2013, tiveram a ideia de começar a Camerata Atlântica que os tem mantido ocupados e felizes. Um dos pontos altos com esse grupo vai ser sem dúvida a participação na Temporada Música em São Roque, já amanhã, domingo, às 16.30.

A participação acontece depois de terem vencido o concurso anual da Santa Casa. Neste ano, foram “61 concorrentes” para conseguirem “nove lugares”, refere o diretor artístico da Temporada, o maestro Filipe Carvalheiro. Os grupos podem candidatar-se através de uma plataforma online, aberta durante um mês (meados de abril a meados de maio) e “têm de apresentar o programa a que se propõem”, sendo depois escolhidos por um júri composto pela diretora da cultura da Santa Casa, o maestro Filipe Carvalheiro e um convidado do meio musical.

Filipe Carvalheiro é o diretor artístico da Temporada Música em São Roque, uma das mais antigas temporadas de música erudita de Lisboa, com palcos espalhados por toda a cidade. É um dos jurados responsáveis pela escolha dos vários grupos que atuam até 10 de novembro. Os músicos candidatam-se através de um plataforma online com o programa que pretendem apresentar na temporada. © Gerardo Santos / Global Imagens

 

Segundo o diretor artístico da Temporada, “uma das razões para a Camerata Atlântica ter sido escolhida é transversal: músicos de qualidade, um programa exclusivamente de música portuguesa e a estreia de uma obra de Sérgio Azevedo, Sinfonietta para Cordas”.

A 31ª edição da Temporada Música em São Roque começou na sexta-feira, 11 de outubro, e termina a 10 de novembro

Uma avaliação que deixa Ana Beatriz Manzanilla orgulhosa, sem perder a noção de que tinham “um programa irrecusável”. “É bastante variado, só com compositores portugueses de diferentes épocas – barroco, clássico, século passado e uma estreia mundial, uma peça escrita especialmente para a Camerata e para esta ocasião, pelo compositor Sérgio Azevedo, e a participação da meio-soprano Carolina Figueiredo.” A que se junta, a fechar, o Concerto em Ré para cordas, de Joly Braga Santos, que “se presta para a orquestra mostrar o seu som, o seu ritmo”, diz a diretora artística da Camerata.

Resta a Filipe Carvalheiro desafiar o público a estar presente: “Um concerto é o resultado dos músicos, mas também das pessoas que estão no público. O público contribui para a realização da música no concerto e é por isso que desafio que venham fazer parte dessa realização.”

Celebrar a música erudita portuguesa

A 31ª edição da Temporada Música em São Roque começou na sexta-feira, 11 de outubro, e termina a 10 de novembro. Uma das mais antigas temporadas de música erudita de Lisboa tem por palcos a Igreja de São Roque, o Convento São Pedro de Alcântara, o Mosteiro de Santos-o-Novo e este ano também o Convento dos Cardeas.

Pelos palcos vão passar grupos como Ensemble MPMP ou Capella Joanina e os Coros Gulbenkian e Casa da Música. A Temporada privilegia os compositores portugueses, muitos dos quais esquecidos há séculos, e que as músicas sacras, uma vez que um dos palcos é a Igreja de São Roque, onde só são permitidas estas obras.

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