A beleza dos duos para cordas de Martinu e Villa-Lobos

As três obras que compõem o CD “Duos”, de Ana Beatriz Manzanilla (violino) e de Pedro Saglimbeni Muñoz (viola) foram compostas no curto espaço de cinco anos, entre 1946 e 1950, pelo checo Bohuslav Martinu e pelo brasileiro Heitor Villa-Lobos. E destacam-se na escassa literatura para duos de violino e viola – uma linhagem que teve em Mozart o seu primeiro compositor fundamental.

Gravado em 2009 em Portugal, onde se estabeleceram Ana Beariz e Pedro, ambos venezuelanos que saíram das fileiras de El Sistema, o famoso projeto de educação musical que, depois de várias décadas, ameaça naufragar diante da situação caótica que vive o país, com a inflação anual beirando os 3.000%. No início de 2018, por exemplo, foram canceladas as apresentações da vitrina do projeto, a Orquestra Jovem Simon Bolivar, no seletíssimo Festival de Lucerna. Gustavo Dudamel, o produto mais reluzente do projeto e atual titular da Filarmônica de Los Angeles, agora é persona non grata do governo venezuelano por sua tomada de posição contra o sucateamento do Sistema e também do próprio país.

Ana Beatriz e Pedro são dois entre centenas de músicos hoje integrando muitas das grandes orquestras internacionais. Uma usina de músicos como esta não tem o direito de parar. Ambos radicaram-se em Portugal na década de 1990 e têm realizado belo trabalho por lá.

Esta gravação, de 2009, encanta pela qualidade e, sobretudo, pela escolha do repertório e formação instrumental. São raros os discos ou concertos para duo de cordas. Mais ainda quando enfocam dois compositores contemporâneos entre si – o checo Martinu nasceu em 1890, Villa apenas três anos antes, em 1887 – que morreram no mesmo ano, 1959. Ambos também estiveram em Paris na mesma época: Villa entre 1923 3 1924 e depois de 1926 a 1930; Martinu chegou a Paris no mesmo ano que Villa, 1923, e lá morou e atuaou por 17 anos, até 1940, quando teve de se refugiar nos Eatados Unidos.

Por tudo isso, dá para afirmar que eles não são apenas contemporâneos; compartilharam o mesmo universo musical e artístico, o da Paris entre-guerras.
O duo interpreta dois duos, com três movimentos cada, de Martinu, e o duo de Villa, com três movimentos. Os três madrigais, de 1947, são antológicos; e o duo no. 2, de 1950, tem no Allegro (poco) final um movimento surpreendente, pelo seu final inesperado.

De seu lado, Villa dedicou seu Duo, composto em 1946, à violinista brasileira Paulina D’Ambrosio. Aqui, o movimento que surpreende é o belo, intenso Adagio, em que o violino repete já desde o início uma suave dissonância enquanto a viola entoa o tema – ambos os instrumentos são tocados com surdina neste movimento.

João Marcos Coelho in Rádio Cultura FM, 16 Fevereiro 2018 / artigo online

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