“É muito importante deixar um registo das obras dos compositores portugueses; é como um legado para as gerações futuras”

Nascido de um programa apresentado em 2022, na Temporada de Música em São Roque, (En)cantos e (An)danças reúne um conjunto de obras em estreia discográfica e traduz o compromisso da Camerata Atlântica com a valorização da música contemporânea portuguesa.

Em entrevista à Da Capo, a diretora artística da Camerata Atlântica, Ana Beatriz Manzanilla, revisita a génese deste projeto e faz um balanço do percurso notável do ensemble ao longo de quase 13 anos de atividade.

Sandra Bastos in Dacapo, 20 julho 2026 notícia online

“Este programa tem de ser gravado”

Estávamos em 2022, na Temporada de Música em São Roque, Lisboa, quando a Camerata Atlântica apresentou um programa com o compositor Sérgio Azevedo, que estreou a sua obra Nursery Rhymes – Six Nonsense Songs for Paula Rego, para Soprano e Camerata e a sua orquestração de Visions d’Enfants, de Constança Capdeville, ambas interpretadas por Eduarda Melo. O projeto ficou completo com Prelúdio para Cordas, de Alexandre Delgado, a Suite para Cordas, de Anne Victorino d’Almeida, e a Pequena Música Lírica para Arcos, de Eurico Carrapatoso.

O resultado artístico foi tão bem-sucedido que, no final do concerto, Ana Beatriz Manzanilla, diretora artística da Camerata Atlântica, não teve dúvidas: “Este programa tem de ser gravado.” Dessa convicção nasceu (En)cantos e (An)danças, o novo álbum do ensemble.

Obras de Sérgio Azevedo, Constança Capdeville, Eurico Carrapatoso, Alexandre Delgado, Anne Victorino d’Almeida e Estêvão Chissano

Com o apoio da Direção-Geral das Artes e da Fundação GDA, no âmbito das comemorações do 10.º aniversário da Camerata Atlântica, durante a temporada 2023/24, o projeto ganhou dimensão. Além da gravação do álbum, editado pelo MPMP, este programa chegou a outros palcos, como Castelo Branco e o Theatro Circo, em Braga. “Fomos amadurecendo a nossa interpretação antes de chegarmos à gravação propriamente dita”, explica Ana Beatriz Manzanilla.

(En)cantos e (An)danças reúne obras de Sérgio Azevedo, Constança Capdeville, Eurico Carrapatoso, Alexandre Delgado, Anne Victorino d’Almeida e do compositor moçambicano Estêvão Chissano. Apesar da diversidade de linguagens, o programa encontra unidade na escolha de obras compostas no início da carreira de autores que hoje ocupam um lugar de destaque na criação musical contemporânea.

A inclusão do compositor moçambicano surgiu na sequência de um projeto desenvolvido pela Camerata Atlântica durante as comemorações do seu décimo aniversário e acrescenta uma perspetiva distinta ao repertório: “Trouxe juventude e uma forma diferente de olhar para a música, uma outra linguagem que contrasta muito bem com os compositores portugueses incluídos no CD”. Sobre a obra de Chissano, destaca ainda a sua dimensão espiritual: “A sua peça acaba por ser quase uma oração; tem algo de místico, mas também ritmos muito diferentes, vindos de outro continente”.

Um disco preparado em palco

Este é o terceiro trabalho discográfico da Camerata Atlântica, uma experiência que permitiu ao ensemble chegar ao estúdio com uma abordagem já consolidada. A gravação decorreu em julho de 2024, no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian, após um período exclusivamente dedicado aos ensaios e às sessões de estúdio. A diretora artística procurou reunir toda a equipa numa fase do calendário em que os músicos estivessem totalmente disponíveis, garantindo as melhores condições de trabalho. A escolha da sala e da equipa técnica, com quem a Camerata já mantém uma relação de confiança, revelou-se igualmente decisiva para o resultado final.

As recompensas compensaram plenamente o esforço: “A primeira, e mais importante, é a partilha da nossa interpretação com todas as pessoas que queiram ouvir o CD. Depois, a divulgação da música portuguesa e o privilégio de trabalhar com a soprano Eduarda Melo, uma artista extraordinária e muito generosa. E, por fim, mas não menos importante, o facto de realizarmos as primeiras gravações destas peças maravilhosas”.

“É muito importante deixar um registo das obras dos compositores portugueses; é como um legado para as gerações futuras”

Quase todas as obras incluídas no álbum surgem em estreia discográfica, transformando esta edição num importante contributo para a preservação e divulgação do repertório português contemporâneo, ao qual se junta o compositor moçambicano Estêvão Chissano.

Para Ana Beatriz Manzanilla, este registo ultrapassa a simples edição de um novo disco: “É muito importante deixar um registo das obras dos compositores portugueses; é como um legado para as gerações futuras”. Defende que é essa a verdadeira missão de uma gravação – “a perpetuidade da música que nele está incluída”.

“Talvez neste momento não tenhamos plena consciência dessa importância, mas existe a possibilidade de, daqui a 20 anos, uma outra orquestra de cordas descobrir alguma destas peças ou estes compositores através deste CD. Pensar nisso é fascinante”, sublinha.

Concurso/Atelier para jovens compositores

Também a pensar nas novas gerações, a Camerata Atlântica promoveu um Concurso/Atelier para jovens compositores, sob a orientação de Sérgio Azevedo. Foram selecionados seis jovens compositores, que escreveram uma peça especialmente para a ocasião do 10.º Aniversário da Camerata e, posteriormente, estreadas na sua temporada de concertos. Uma das obras resultantes desse projeto integra agora o novo álbum.

“Partilhámos opiniões sobre diferentes aspetos, desde a escrita específica para cordas até à organização dos compassos para facilitar as viragens de página. Foi muito positivo conversar com eles e perceberem como soa a sua música interpretada por músicos reais, e não apenas através de um computador”, conta Ana Beatriz Manzanilla.

“É um privilégio trabalhar assim, com rigor e seriedade, mas também num ambiente de amizade”

Não obstante (En)cantos e (An)danças seja um projeto comemorativo dos 10 anos da Camerata Atlântica, esta já soma quase 13 anos de atividade ininterrupta. Nesse percurso, construiu uma identidade assente na versatilidade artística, passando pelo repertório barroco, romântico e contemporâneo, sem esquecer incursões pela música latino-americana, e colaborando com solistas nacionais e internacionais.

Para Ana Beatriz Manzanilla, um dos maiores motivos de orgulho continua a ser a estabilidade da formação: “Cerca de 90% da mesma equipa de músicos desde o início”. Uma continuidade que atribui ao empenho dos instrumentistas e ao espírito de entreajuda que se foi consolidando ao longo dos anos: “Os músicos da Camerata são extremamente dedicados e empenhados em dar o seu melhor em cada projeto. Isso facilita muito o trabalho conjunto, porque já nos conhecemos muito bem; muitas vezes nem é preciso dizer grandes coisas, todos sabemos o que pode ser melhorado.”

Destaca ainda o ambiente de rigor e camaradagem que caracteriza o ensemble: “É um privilégio trabalhar assim, com rigor e seriedade, mas também num ambiente de amizade”.

O sucesso do Concurso Nacional de Cordas Vasco Barbosa

A dimensão pedagógica é outro dos pilares da Camerata Atlântica. Desde 2015, que organiza o Concurso Nacional de Cordas Vasco Barbosa, que tem revelado jovens talentos, proporcionando-lhes a oportunidade de se apresentarem como solistas com a Camerata Atlântica e, nas categorias mais avançadas, com algumas das principais orquestras portuguesas, como a Orquestra Sinfónica Portuguesa, a Orquestra do Algarve, a Orquestra Clássica do Centro e a Orquestra do Norte.

Ao longo de oito edições, o concurso lançou dezenas de músicos que hoje desenvolvem carreiras como solistas ou integram importantes orquestras em Portugal e no estrangeiro. “Na maioria das vezes, é com a Camerata que fazem a sua estreia como solistas com orquestra”, afirma Ana Beatriz Manzanilla, que considera esta iniciativa “um enorme orgulho” por dar continuidade ao legado de Vasco Barbosa e criar oportunidades fundamentais para o crescimento artístico das novas gerações.

A esta vertente juntam-se regularmente masterclasses e ações de formação em diferentes regiões do país, muitas delas orientadas por músicos convidados de reconhecido prestígio internacional, como como o contrabaixista Edicson Ruíz, o trompetista Pacho Flores, os violinistas Giovanni Guzzo e Alissa Margulis, as violetistas Sheila Brown e Jennifer Stumm e a flautista Adriana Ferreira.

Novos projetos incluem também novo disco com a acordeonista Inês Vaz

A Camerata Atlântica prossegue o desenvolvimento do projeto Arte, Pensamento e Futuro, apoiado pela Direção-Geral das Artes, mantendo uma intensa programação artística que inclui concertos em Portugal e no estrangeiro, iniciativas pedagógicas e novas gravações.

Entre os projetos em curso destaca-se um novo álbum com a acordeonista Inês Vaz e os solistas da Camerata Atlântica, a continuidade dos ciclos de concertos em vários pontos do país e o desenvolvimento de novas produções de música de câmara e de ópera. Entre estas sobressai Acis and Galatea, de Handel, que continuará o seu percurso em 2026 com apresentações no Teatro Garcia de Resende, em Évora, acompanhadas por ações pedagógicas em localidades como Almeirim.

Treze anos após a sua fundação, a Camerata Atlântica continua, assim, a afirmar-se como um dos mais ativos ensembles portugueses, conciliando interpretação, criação contemporânea, gravação e formação. (En)cantos e (An)danças é, simultaneamente, um retrato desse percurso e um ponto de partida para os projetos que se seguem.

https://camerataatlantica.pt/encantos-e-andancas-cd/

Fotos Camerata Atlântica:  @zemariara
Foto Ana Beatriz Manzanilla: @Diana Tinoco
Foto Eduarda Melo: @Nelson D´Aires

Fonte
Silvia Pons in Ritmo.es
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